segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sugestões Para Atravessar Agosto

"Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco."

Caio.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Palavras

A você,

Eu tenho coisas para confessar. Coisas bonitas, claras. E tem as outras.
Meu mundo agora, tem cor. Encontrei de novo o que chamam de amor.
Amor esse com forma e gosto doce, imprevisível como eu, insuportável como você.
Eu acho que te disse, dia desses, como eu tava despreparada pra amar.
Como me iludi com letras e músicas e como com elas me fiz desapegar.
É, te falei. Mas como tantas outras vezes, você só quis falar.
Falou pra mim como tudo isso era lindo. Como tudo isso tinha um futuro montado.
No começo eu tive medo. Aquela insegurança que bate quando você percebe que seu coração não pertence mais só a você mesmo.
E como eu disse que isso ia mudar.
A dependência do amor. Por textos me diluí, me quebrei em fragmentos poéticos e tentei me convencer de que aquilo, não era mais pra mim.
Sofrer de sorriso estampado, sentir cicatrizar com uma caneca em mãos, um cigarro aceso e uma madrugada aberta.
Por vezes você me pergunta, quer entender.
E eu digo, esquece, baby. Entender aqui não é sempre. E sempre aqui, não é todo dia.
Eu te ofereço o mundo, te ofereço um sorriso doce, um café quente e um amor novo.
Novidade.
Você surgiu em mim não mais que de repente. Vezenquando ainda me questiono.
Destino.
Ora essa. Você foi feita pra mim. A igualdade não nega o desentendimento.
Então fica mais um pouco.
Deixa a porta fechada, abre a janela que o coração já tá no lugar.
No seu lugar.

Afogada

Tantas formas de falar, tantos jeitos de mostrar, tanta vontade. Uma intensidade que eu não sei mais controlar. Uma força que não sou mais capaz de vencer. Como em um rio perdido em afluentes, me deixo levar pela correnteza sem nenhum medo de me afogar.
Gosto de margens largas, oceanos profundos e piscinas grandes. O suficiente não é o necessário. Os desejos crescem com falta de proporção, debaixo das águas turbulentas me afogo e quero mais.
Encontro você, perdida em alto relevo. Estabilidade grosseira que preciso quebrar.
Nadei até aqui para te achar. Achado perdido. No meio do mar.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

De dentro

As folhas do inverno faziam barulho enquanto eu caminhava no frio, secas. Se despedaçavam aos poucos com os passos acelerados, passos de quem quer muito chegar, mesmo sem saber o lugar. As noites são meu refúgio, a lua minha segurança e o silêncio do escuro é a paz que falta. Porque sempre falta alguma coisa.
Não tinha certezas. Como um andarilho de sentimentos, me encaixava talvez nesse perfil. Alguém. Eu era alguém tão perdido quanto encontrado. Alguém tão desesperado quanto pacificado. Alguém tão apaixonado quanto desapegado. Tão in quanto out.
Minhas fugas ainda existiam, e eram frequentes. Talvez o que faltasse, fosse aceitação do estado eterno de insatisfação.
Como uma doença crônica. Doença essa que é viciada em eternidade, apavorada de solidão e inconpreensivelmente insatisfatória. Que não se cura por harmonia, se sustenta pelo caos e quer sempre ser mais doce. Meu paraíso é o conflito.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lentidão parcial


Efêmero.
Hoje o dia me transpassa devagar. Me trouxe um cansaço quase físico de querer e admirar coisas pequenas. Muita percepção, muito desejo de palavra, de cheiro, de carne.
Ontem aconteceu. Me apaixonei. Sem muito tempo, sem muita razão.
Desse jeito, sigo escutando músicas românticas, lentas e outros rocks pesados que me fazem gritar e rodopiar no quarto, acordando sempre a filha da vizinha.
Acordei hoje com vontade de flores. Bem coloridas, cheias de vida e reluzentes. Para enfeitar o dia e trazer calmaria pra casa.
A lua me enfeitiça todo dia, e a noite me devora aos poucos. Enquanto os outros dormem eu aprecio a respiração calma, o silêncio da madrugada e o vento gelado que vem do mar. Cheiro de dama da noite, cheiro gelado e fresco que corta a janela.
Tudo tem uma beleza a mais do que eu percebia. Como se em uma meditação, havia uma rotação mais lenta pros acontecimentos. O dia vai terminando e a hora de ir embora chega.
Mas eu quero ficar aqui,
só aqui.

Carta - O começo e o retorno


As pessoas e aquela mania implicante de buscar incessantemente uma explicação. Como se precisassem de uma direção concreta e sem falsos pretextos para seguir em frente, planos e certezas que nem as maiores promessas podem fornecer. Comecei a escrever por isso.
Digo, quando entendi que eu não tinha, e nem queria explicação nenhuma. Que justamente essa falta era o que mais importava dentro desse novo sentimento que aparecera naquela tarde. Da forma mais simples, em sua pura existência, nasceu em mim uma flor colorida. Novidade.
Meu sorriso agora, constante. Minha vontade, toda sua. E o cheiro doce me seguindo em todos os ares.
Era curioso. O que mais me atingia era como aquilo, ao mesmo tempo que me despertava de mim e fazia minha cabeça não querer parar, me fazia ficar sem reação.
Sem palavras. Eu parecia um gago, com palavras a serem ditas que se engasgavam na garganta, precisando de tempo pra respirar, deixar o frio na barriga passar e conseguir organizar os pensamentos.
Mas esses, eram ligados a uma coisa só. Você.
Eu não te contei na semana passada, mas tem tanto tempo. Um tempo enorme que faz, da distância desse sentimento. Desse estado apaixonante, dessa vontade embriagada, desse sono profundo e desse beijo molhado.
Não quis te dopar com histórias nostálgicas nem falar de depressões amorosas e desesperanças. Mas só não o fiz pra não perder preciosos minutos ao seu lado, falando de algo que agora não tem importância. Agora, eu quero você.
De um dia pro outro a minha ideia de apego e carinho mudou da água pro vinho. Quase que literalmente. A água, agora roxa, me deixa com uma sede cada vez maior, e eu vejo toda minha teoria de unidade sendo levada ralo abaixo.
Podia ser qualquer um, mas dessa vez tinha que ser você. Com um jeito indomável e carinhoso, você conseguiu me prender. Me prender nos pensamentos, nos sonhos e até mesmo nos planos estúpidos que nos trazem uma ideia forçada de certezas futuras.
A única certeza que eu tenho por agora, é que eu quero você.
E quero de um jeito bobo, delicado, forte, apaixonado. Quero me perder no seu abraço, quero ouvir suas histórias, dormir embrulhada em você. Você me dá uma coisa, que eu tambem esqueci de falar dia desses. Me sinto segura ao teu lado. Quando longe, vezenquando pensando na saudade, consigo sentir que você pensa de volta.
Doce. Sente?