sexta-feira, 8 de junho de 2012
Você,
-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.
CF.
domingo, 3 de junho de 2012
Re-tros-pec-to
Despertei. Quando abri os olhos, olhei em volta sem reconhecer nada. As mesas brancas que se encaixavam perfeitamente nas quinas da parede eram cobertas de flores coloridas e livros empoeirados. A cama tinha um cobertor amarrotado e no banco ao lado um café quente.
Me sentei. Precisei de alguns segundos de realidade para me desligar do sonho. Aquele, que tive com você. Não bastasse as diárias perdidas com o pensamento agarrado em você, as poucas de sono que me restavam você invadia. Não era justo.
O sol, tímido em um dia nublado, tentava atravessar as persianas azuis e acertar em cheio meus olhos, transbordando de lágrimas.
Uma delas caiu no lençol laranja, e fez uma mancha tão grande. Aquela maquiagem pesada da noite anterior tava toda ali, ainda. Aos poucos a consciência voltou.
Tinham sido três gostos naquela semana. Não queriam mesmo ir embora, e se fizeram presente em todos os dias dela: vodka, café e lágrimas.
Me atingiam em diferentes momentos. Mas você, estava sempre ali.
Quando me levantei da cama, cambaleei. A mesma vontade que gritava de dentro de correr e ir atrás de você, se contradizia com a inércia do corpo, que só queria dormir e ficar ali, jogado nos pensamentos seus.
Enquanto não resolvia, senti o braço arder. Lembrei. Aqueles cortes tinham ficado sem curativo, e eu estava tão exposta quanto eles.
Minha mãe interrompe a confusão, abrindo a porta. Ela me viu chegar em casa, acabada daquele jeito, então não precisava ter receios ou esconder nada. Simplesmente fiquei em pé, parada.
Ela me abraçou e disse:
-Sabe, filha. O coração é o único que dá a vida e a morte. Ele tem vida própria. Com ele, a gente não deve nunca discutir.
Me deu um beijo na testa e saiu, acendendo um cigarro.
E eu fiquei, ali. Com o gosto de ontem, querendo sentir o de amanhã.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Um café e a conta
Entre o agasalho felpudo e a pasta pendurada no ombro esquerdo, recheada de papeladas e livros, ele desceu a escada de madeira que rangia a cada passo sentido e que exalava um perfume conhecido: alecrim. Distraído, abriu a porta de casa e encarou o frio que fazia, era abril, não era um frio comum pra época. Mas tudo que vinha acontecendo, também não. Então talvez fizesse algum sentido. Mesmo sem fazer.
Sentou em um café de esquina, na mesa de fora para poder acender seu Marlboro. Pediu um capuccino grande, puxou o isqueiro e se recostou. Ele adorava fazer isso: exílio. Tinha tempo pra pensar, remendar e desfazer os nós de sua hiperatividade sentimental.
Mas ele não sabia que era vã aquela tentativa, de achar sentido onde não tem. Não se pode explicar o inexplicável - ele pensou. O que define o inexplicável? Seria a falta de capacidade? Falta de coração? Não. Isso nunca lhe faltou.
O garçom interrompeu seu fio pensante e apoiou a xícara sobre a mesa, observando o menino que mais parecia perdido em um fuso horário interplanetário. Deu as costas, curioso. Era um homem mais velho, provavelmente viúvo, havia servido na guerra e tinha lá seus traumas pessoais. Mas apesar de tudo, ele também tinha coração.
O menino bebericou o café esfumaçado, queimou a língua e tragou o cigarro. Era o terceiro que acendia - hábito adquirido recentemente graças a sua ansiedade incontrolável. Continuava com o olhar vago, entre tantas pessoas e passagens, ele permanecia inerte.
O garçom, intrigado, voltou a mesa e pergunto:
- Deseja mais alguma coisa?
O menino demorou a responder. Aquela pergunta tinha tantas respostas no seu inconsciente, que precisou de alguns segundos para se dar conta que era apenas um garçom, e que ele não poderia conceder metade da lista que viera a sua cabeça.
- Não, obrigado.
Ele disse seco.
O garom continuou ali, parado. Ele tinha cabelos grisalhos, e tinha aparência de ser um avô muito agradável - pensou o menino.
- Olha, eu sei que isso não é da minha conta - começou o garçom - mas você é tão jovem. E com esse olhar, só pode ser coisa do coração.
O menino suspirou. O vovô estava certo. Era.
- Não sei se de coração. Mas são coisas da vida. Coisas passageiras, eu espero. - retrucou o menino.
O garçom riu, um sorriso melancólico, de quem entendia exatamente o que aquele menino perdido queria dizer. Ele retirou a xícara, passou um pano úmido na mesa e se retirou. Ele sabia, que não importavam as palvaras ditas, ou o esforço feito para convencer o menino de qualquer certeza. Afinal, elas não existiam.As certezas.
Meras invenções! - pensou ele.
O garçom trouxe a conta. O menino levantou, pegou a pasta e disse:
- O que você acha?
- Que você já achou.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Looping
Era aquela mesma melodia. Começava com a manhã, e mantinha seu ritmo durante a tarde. Quando a noite chegava ela ficava no automático, tocando sozinha.
É engraçado como ela tinha essa característica, ato falho.
Necessidade. Era isso! Ou, achavam que era. Em sua memória tudo tinha uma relação. Conforme os fatos evaporavam do momento e entravam no pretérito, dentro de sua cabeça já existiam laços correlacionando todos os sentimentos possíveis, e em sua maioria, inventados.
Ela acreditava em todos. Argumentos contrários ou opiniões reversas, nada era capaz de dissolver aquela imaginação meticulosa, que adquiria mais força a cada manhã, quando a melodia começava a soar.
Seus passos já eram desprendidos da razão, desde quando não é mais possível se lembrar.
Essas idas e vindas, incertezas vitalícias que driblamos com palavras fortes, quanta porcaria!, pensava.
Era intrigante. E talvez, esse sintoma só piorasse aquelas repetições.
Se precisar esquecer, dorme que passa - diziam.
Eu durmo. Mas quando acordo, só encontro a manhã. A mesma de ontem, só que um pouco maior.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Faz tempo. Talvez aqui seja um bom começo. Tempo esse que me fez falta, e só percebi a falta que o tempo fez quando o tempo não tava mais lá. Aquele tempo que a gente tem pra dentro. Tempo de olhar o espelho, o teto e até mesmo as páginas daquele livro velho, favorito, cheio de rabiscos e pensamentos. Tempo de sentir o cheiro da janela, de se esticar na diagonal da cama e fazer um café. Esse tempo de que falo são as minhas madrugadas.
Antes, tão presentes. Todos os dias vinha me visitar.
Não sei se fui eu, que perdi a loucura, ou se ela que cansou de vir me chamar.
Aos poucos me acostumei a não tê-la.
Dela já não sei mais.
O azul do céu é que me recebe, com aquele insuportável vinil transparente, radiando dourado.
Fazia falta que esse tempo não aparecia. Tempo de mim.
Antes, tão presentes. Todos os dias vinha me visitar.
Não sei se fui eu, que perdi a loucura, ou se ela que cansou de vir me chamar.
Aos poucos me acostumei a não tê-la.
Dela já não sei mais.
O azul do céu é que me recebe, com aquele insuportável vinil transparente, radiando dourado.
Fazia falta que esse tempo não aparecia. Tempo de mim.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Qualquer coisa

Uma menina veio me perguntar, tarde passada.
-Por que você nunca mais escreveu?
Era curioso ver como ela, aquela menina, cheia de inocência e sede de vida nos olhos, ainda podia querer saber das minhas palavras.
-Não sei.
Respondi, querendo desconversar. Eu sou uma pessoa com a boca muito aberta, mas coração nem tanto.
Insatisfeita, ela relutou:
-Então, é porque tem coisa para ser dita. Não é?
E aí eu vim aqui. Fugi da menina com o cigarro na mão, e as sombras foram passando, aos poucos.
Talvez ela esteja certa, aquela menina.
Talvez.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
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