segunda-feira, 14 de junho de 2010

Quem não se vê


Por faltar dígito justo que correspondesse à penumbra pensante, resolveu confessar. Ela tinha às mãos seu café, apoiado sobre a mesa seu livro e seus óculos. Pelo tédio caseiro tinha saído pra rua, queria ver gente, presenciar romances, observar outros que pudessem se transformar em futuros personagens. Dessa vez não tinha música aos ouvidos, era só o som da rua e da movimentação mesmo. Ficava incrível com a circulação de tudo. Os passos iam cada vez mais pra longe, eram tantos mundos se esbarrando em alta frequência e no final sempre se encaminhava ao perfeito.
Até que um toque de celular interrompeu o devaneio. Ela respondeu:
-Oi.
-Ei, por onde andas? Pelo barulho digo que está nas ruas.
-Sim, sim. Saí de casa não faz muito tempo.
-Achei que tivesse que trabalhar de casa hoje.
-Tenho, adiantei os projetos. Só vim buscar um café e perseguir personagens. Volto logo.
-Precisa de ajuda? Me preocupo com essas fases onde se afoga em si mesma. É sempre falta.
-Não se preocupe. Sei me cuidar. E você sabe disso também.
-Sei...
-E não falta nada. As vezes, falta alguém.
-Mas você sabe quem?
-Não. Só sinto falta dele. Desse alguém que falta, sabe.
-Acho que você sabe, sim. Só se pode faltar o que já existiu. E se sentes isso, é porque já o conheces.
-Talvez.

2 comentários:

  1. Às vezes não apenas saimos nas ruas para procurar personagens, como também para tentar encontrar iguais.
    Um mundo é sempre sozinho sem outro por perto...

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