quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


"Life has a gap in it... It just does. You don't go crazy trying to fill it."

Maré da meia noite

A madrugada passava, mas aqueles pensamentos não. Seria mesmo tudo perecível? Uma data pré determinada pelo que gostamos de chamar de destino, para justificar o caminhar desarrumado das coisas que fugiam de nosso controle. Simplificávamos a vida, tentando não se preocupar ou não culpar nada nem ninguém, "algumas coisas acontecem, e não necessariamente do jeito que esperamos" - diria meu pai. Ele tinha razão. Algumas, e as vezes muitas, das coisas pelas quais passávamos, não fariam sentido algum. Era como tentar desvendar uma equação de álgebra com três variáveis, cinco expoentes e nenhum resultado. Não temos comparação, referência ou ponto de encontro. É, porque é, e acabou. As nossas questões infantis, que vinham sendo desiludidas, reformuladas e substituídas, deveriam ser - e apenas ser - aceitas. Expectativas quebradas em inúmeros retalhos, sofrimentos amargurados e psicologias de bar jamais seriam suficientes para designar alguns dos mistérios - míticos, astrológicos ou espirituais - pelos quais éramos obrigados a nos submeter. A maré leva você, se dormir demais. A maré afoga, se esquecer de respirar. A maré te puxa de volta, se você deixar.

Penhasco

Você me chama, e me segura, e me aperta e me solta.
Quando eu respondo e grito, e brigo, e canto e choro você sofre.
Depois, eu saio, a porta bate, o carro liga e o telefone toca.
Mais tarde, a lágrima escorre, o medo aparece, a vontade some e a coragem falta.

Lutando convencidamente contra a maré
Será que não sabemos mesmo onde vamos bater
Ou que apenas não queremos enfrentar
Aquela falta de coragem
Aquela porta batida
Aquela lágrima escorrida
Aquela dor que não cessa

 Aquele ponto que não fin
.

Desabafo Refugiado

As ruas estavam vazias nessa noite de terça feira. Era feriado, e a maioria das pessoas estava em casa, se recuperando da ressaca ou vendo algum programa na tv. Eu resolvi fugir, nessa noite. Não, calma. Não foi nada dramático nem tão hollywoodiano quanto parece - ou até mesmo quanto eu gostaria que tivesse sido. Foi apenas uma fuga necessária, e bastante bem vinda.
Me programei para fugir ainda em casa, sem muitos planos nem muitas falas. Nessa noite, precisava de uma sala escura, com algumas músicas no fundo, Uma cadeira de couro reclinável, os meus óculos no rosto e algumas horas de tranquilidade - identidade - e por isso, tomei um banho e saí.
Saí pelas ruas vazias, esbarrei em algumas outras pessoas perdidas - ou nem tanto. Umas passeavam com seus cães, outras davam as mãos, andando calmamente. Era bom poder sentir a noite dessa forma tranquila. A cidade, sempre em chamas, as vezes faz você esquecer de como é bom sentir a noite assim, sozinha.
É engraçado como muitas vezes as pessoas sentem medo dessa solidão.
- Vou ao cinema.
- Ah. Vai com quem?
- Comigo.
- Ué. Mas por que? Posso ir com você.
Não, obrigada. A companhia que preciso hoje não é física, e muito menos pessoal. Disso, me basto por enquanto.
A sala de cinema estava vazia, assim como as ruas. Tinham duas amigas, um casal, dois idosos e uma outra menina, sozinha, assim como eu.
Prefiro sempre os lugares de canto. São mais isolados, reservados, e se me der a louca, tenho sempre a opção de fugir (fugir da fuga?) sem atrapalhar ninguém. Fileira I, número 1 - meu número na Cabala, dia do nascimento, número da sorte. Sempre me sinto mais acolhida quando o 1 está na jogada.
Durante cento e dezesseis minutos, estive refugiada. Que bons minutos foram aqueles. Redescobri que sou mesmo uma ótima companhia, e que deveria fazer isso mais vezes. O filme - "Entre o Amor e a Paixão" - como um senhor descreveu na fila para seu amigo: "uma dessas comédias românticas" é extremamente simples, mas trata do assunto mais complexo que eu me atrevo a acusar: o amor. E não, não é apenas mais uma comédia romântica. Ele tem senso de humor, e dos bons. Mas não se reduz a um filme água com açúcar com happy ending. Ele traz diversão, conhecimento, questionamento. Embalado por uma trilha sonora peculiar e com a fotografia e iluminação impecáveis, te faz delirar de desejo e sofrer por amor.
Fugas assim, deveriam ser mais frequentes.

You seem restless, in a kind of permanent way.


"I remember when my niece, Toni, was a newborn. I’d babysit her and sometimes she’d cry, like babies do. Nine times out of ten I could solve the problem, I could figure it out, but… Sometimes when I’m walking along the street and a shaft of sunlight falls in a certain way across the pavement and I just want to cry. And a second later, it’s over. And I decide, because I’m an adult, to not succumb to the momentary melancholy and I had that sometimes with Toni. She just had a moment like that. A moment of not knowing how, or why, and she just let herself go into it. And there was nothing anyone could do to make it any better — it was just her, and the fact of being alive, colliding."

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Loucura, Chiclete & Som

O guardanapo da mesa do bar se fez negro. Havia tempos que não dava vazão aos pensamentos, e de repente, sofria de pequenas epifanias, brancas e brandas, que dominavam e precisavam se expandir quase que imediatamente.
Algumas, ela conseguia guardar. Como quem guarda um segredo, ela remontava e visitava seus lapsos íntimos e momentâneos, como uma revisão de memórias. Até quando elas estariam por perto, não podia saber. Era cientificamente comprovado de que elas, as memórias, em algum (in)determinado tempo, desaparecem. E daí, cabe a você lembrar do que foi, ou do que na verdade você mesma inventou.
Aqueles segredos acompanhavam a menina: confusa, perdida, caótica, apaixonada - todas as características extremamente bem colocadas e positivadas.
Fatos diários que se desfazem em sonhos, lembranças do que ainda está por vir e segredos concretos - tão fortes que chegavam a doer, vezenquando.
Surpresas matinais, sorrisos banais, falamos de amor, ou do que mais?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Estrela da meia noite

Meus encontros com a madrugada eram sempre assim. Ela chegava de fininho, sem avisar que vinha. Mas chegava em boa hora, sentindo que precisava. Precisava dela como preciso de mim, necessidade. Escape, fuga, alívio. Eu tinha um lápis, um papel em branco, poesia e um maço cheio de cigarros frescos. Além disso, e de mim - claro - eu não precisava de mais nada.
Mentira.
Eu precisava de você. Precisava fazer parar essa dor - vai parecer estranho, mas que dor boa! - que você me trazia.
Assim como a madrugada, você chegou sem avisar. Te recebi, perplexa. Completamente desamparada e com um maço cheio, também.
Djavan canta aqui, pedindo uma resposta, pedindo um dragão. Sou o próprio. Seu.
E você é aquele amor, que você trouxe pra mim.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

E exigimos o eterno do perecível, loucos

Aquilo que está sujeito a perecer, a extinguir-se.
Uma coisa que tem prazo de validade.
Seria essa a melhor forma de começar o desabafo? Através de um diálogo, talvez, faria-se mais fácil a compreensão. Mas não, não posso, só consigo falar comigo mesmo - pelo menos sobre isso. Pelo menos por enquanto. Loucos aqueles que se atrevem a acreditar no eterno remando fortemente contra a maré do tempo. Loucos os outros, dos quais já fiz parte. Loucos aqueles que acreditam em happy ending nos mundos atuais, ou que justificam o fim do mesmo pela juventude moderna e postituída.
Acho que o quero dizer, aqui, é que não sinto mais. Chega um ponto em que você sente porque está acostumado. Como o café, na manhã. Você sente falta porque ele te encontra todos os dias lá, na mesma xícara, com o mesmo cheiro, com o mesmo gosto, acompanhando seu primeiro cigarro, com a fumaça que te faz abrir os pulmões e fingir, mesmo que por um curto espaço de tempo - o das cinzas dominarem o físico - que sim, está tudo bem. Ou se não está, vai ficar, um dia, uma tarde de primavera quem sabe, uma noite quente de verão - chegará de volta o dia em que tudo se encaixa, tudo volta pro lugar. Volta mesmo? Ou encontra um novo. E se existe um novo, é porque ele deve ser melhor do que o tudo bem que existia antes, mesmo que antes, desse novo, pensasse o contrário de agora. Entendo agora porque não posso tornar isso um diálogo. Digo que loucos são os que exigem o perecível, mas louco de verdade sou eu. Descobri isso ao longo desse perecível tempo, que chega ao final toda tarde, que me devora todo dia, que me consome toda noite e que não sei - agora - o que mais é de mim, o que já foi e principalmente o que vai ser. As palavras machucam conforme ensaiam sair da minha boca e ferir, ferir, ferir. Digo que não sei assumindo uma culpa eterna de exigências pessoais do maior nível de críticas que se pode ter como parâmetro. Sou meu, e de mim preciso saber. Mas e se digo que não sei, que agora nem sei mais se quero saber. E se antes sabia, com que certeza pude acreditar nisso, se essa crença, também perecível, já não existe mais? Então ela concreta em forma e espaço também nunca foi de todo verdade. Só posso esperar, e esperar de novo. Que a loucura, meu Deus, seja também, eterna perecível.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

21.10.12

A manhã desse domingo começou diferente. Eu ainda não sabia que você tinha ido. Foi um começo de domingo normal, como qualquer outro. Como tantos que você viveu, e tenho certeza que ainda se lembra. Aquela preguiça enrolada no lençol, aquela vontade de ir pegar um sol e ver o mar. Mas nesse domingo, não foi assim pra você. A manhã se tornou noite talvez antes mesmo do sol nascer. O brilho e a luz que você viu, não pertenciam ao sol. Era um farol quebrado, e depois, mais nada. Calmaria. Paz. Silêncio. Uma brancura de doer os olhos, eu imagino.
Essa foi a diferença, a desse domingo, quero dizer. Ele não começou pra você, como o fez por vinte e cinco anos. Um número pequeno, levando em conta a ausência, a presença, a saudade, e o tanto de coisas que sequer tiveram tempo de virar saudade. Aliás, - tempo- você teve? Fico aqui me perguntando se aquele tempo doado a você, pelos tais vinte e cinco anos foram suficientes para completar todos os seus sonhos - além de ir a Califórnia, que você conseguiu - todos aqueles sonhados no escuro da noite, todos aqueles confidenciados em conversas, todos aqueles omitidos de gestos. Tiveste tempo de ser? Não pode ser assim, não, ô senhor tempo. Com quem devo reclamar? Tiram dela a vida, assim, em um estalo, e o que resta dela fica aqui, nesse limbo, querendo entender, buscar uma explicação concreta que fale mais alto do que a dor e do que a indignação do peito, e dos constantes "por quês" que não param de atravessar a nossa mente.
E no final, de que adianta? Chegaremos todos na mesma luz cega que ela chegou, nessa manhã diferente de domingo. Se vai ser no início da semana, no caminho do trabalho, em casa dormindo - isso, ninguém sabe. O tempo, esse nosso mestre senhor, gosta assim, de surpresas. Mas a desse domingo diferente, não foi uma surpresa boa. Não foi porque não parece justo, a nós, meros humanos mortais, que pecam por não ter o conhecimento geral dos fatos e da vida. Ela era boa, sabe. Não cabe dentro da definição de "certo" um acidente desse nível acontecer e assim, em um piscar de olhos, sem dor, ela ser levada embora - ser arrancada daqui, do lado.
De que adianta toda essa depressão que procede o choque. De que adianta toda essa vida, vivida em vinte e cinco anos, toda essa definição de vida, todas essas imposições, todas essas regras se quando tem que ser - é de qualquer jeito.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vai Saber...

Não vá pensando que determinou
Sobre quem só o amor pode saber
Só porque disse quem não me quer
Não quer dizer que não vai querer

Pois tudo que se sabe do amor
É que ele gosta muito de mudar
E pode aparecer onde ninguém ousaria supor

Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha do que duvidar
Pensando bem pode mesmo chegar a se arrepender
E pode ser então que seja tarde demais
Vai saber...

Pois tudo que se sabe do amor
É que ele gosta muito de se dar
E pode aparecer onde ninguém ousaria se por.


Vai Saber - Mart'nália

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Que está ligado, atado

- Então, como você se sente hoje?
- Detida.
- O que te impede?
- Não, não é isso. Talvez eu deva me expressar melhor.
- Talvez.
- Veja bem, não é que haja necessariamente algum impedimento que implique na minha detenção.
- Então o que é que há, necessariamente?
- Nada passível de palavras. Existe uma condição. É isso! Isso caracteriza a minha detenção. É nessa condição que me encontro: detida. Não necessariamente por um motivo que faça dessa inércia constante, mas por simplesmente estar assim. O caminho é in, não off. Consegue entender?
- Hum... Acho que vejo uma luz nisso que você me diz, sim. Mas continue. Sobre esse caminho "inn" de que fala, quer dizer que não existe uma influência externa sobre a qual você esteja diretamente relacionada, e que consequentemente implique na sua detenção?
- Estou aprisionada em mim, por causa de outra pessoa. Faz sentido?
- Não estamos aqui para fazer sentido, e sim para entrar em contato, mesmo sem fazê-lo.
- Então é justamente isso. É uma prisão da qual não consigo sair. Ou talvez consiga e não queira. Ou talvez esta já tenha se tornado na verdade, a minha própria fuga, a minha liberdade. O que torna o "off" o aprisionamento em si. De maneira que não quero mais ir embora, digo, quero continuar presa.
- Você sabe a definição de "preso"?
- Não, exatamente.
- É do latim, prehensu, que quer dizer tomado, agarrado, seguro.
- Definir algo é limitar algo. Apesar de aprisionada, acho que aqui dentro existe um infinito. E alguns infinitos são maiores do que outros.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Só pra saber, nesse tal filme de romance


Leio e releio você sem pressa. Aos poucos, absorvendo cada palavra - inúmeras vezes - que vão se multiplicando e ecoando no peito, ganhando ritmo e pressão. As vezes parece que me alimento de você. Quando sinto frio, a sua ausência é o que me envolve, e conforme a minha pele reage ficando completamente arrepiada, é porque fechei os olhos e imaginei seu toque. Eu não quero ser igual à ninguém. Não suportaria essa ideia, que as vezes me ocorre e já me deixa insuportável. Ser um de novo, um outra vez. Nada repetido. Nada mais uma vez.

O coração quando resolve ser capitão, não sabe das tempestades. Ou talvez saiba - mas o que me encanta, e só - é a completa ausência do medo pelo total e incontrolado sentimento que é gerado a partir de - que?. Eu lembro da primeira vez que te vi. Lembro da segunda. Mas não consigo olhar pra trás e definir o momento em que eu - inteiramente - estava entregue. Penso que, talvez, não exista de fato essa divisão. Talvez tenha sido assim desde antes, desde sempre.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Céu de Diamantes

Brilha demais com um brilho que ofusca que perde a respiração que deixa você tonto deixa você paralisado deixa perdido inquieto intrigado insaciável.
Vontades redigidas sem pontos nem separação porque havia tudo menos isso menos essa divisão menos essa distância porque isso era tudo que não se queria.
Queria-se demais o brilho que ofuscasse e que cegasse por completo os desejos intermináveis e contínuos que lutavam e lutavam e lutavam assim sem parar.
Música clássica não conseguia mais descrever a sensação agora só o que podia chegar perto de tudo que se sentia era uma bateria pesada de um rock n roll de garagem com o baixo bem estridente e com a guitarra fazendo solos incompletos porque falta falta falta.
Energia dissipada de pensamentos canalizados pra sonhos onde o inconsciente me manda fazer tudo que eu não faço quando acordado mas que quero tanto que me perco em todas as vontades ininterruptas de mim mesmo e me vejo afundando em um abismo infinito em que não posso nem consigo agora nesse momento simplesmente parar ou retroceder ao início porque já tem gritaria demais e vontade demais e loucura demais porque é óbvio, você não vê?
Também é tarde demais.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Quando não se tem o que se vê (quer)

Pessoa hoje me acordou com palavras doces. Dicas de um sábio desfalecido que após inúmeras tentativas de explicar ou se apaixonar, morreu amando todo o amor que sentiu.
Pessoa hoje me acordou falando, "sossega coração". Eu prometo que tento, Fernando. As adversidades estão aí, emplacando nossas contradições e nos levando a direções tortuosas quando nem ao mesmo se sabe onde quer chegar.
Pessoa hoje me acordou tentando me alertar, "quem quer dizer quanto sente fica sem alma nem fala", mas já era tarde. Não me vejo com posse de nenhuma delas, armadilhas astutas que me consumiram. Me acabaram. Isso é revelado, desvendado, como a retina de mim que reflete todo o caos, impossível de não se ver.
Pessoa hoje me acordou falando de morte, "O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.". Ele já sabia quando falava dela, que a cada ganho significa também uma perda enorme. A perda, que muitas vezes, me soa como uma exímia solução dos meus quereres e confusões, amortecidas pelo viver, a-morte-cidas.
Pessoa hoje me acordou explicando que o ser humano é imperfeito. E que nisso, existe uma incessante busca pelo entedimento inalcançável por natureza. E que por isso, carregamos um sofrimento tenro de não chegar onde supostamente devemos. E onde é exatamente?
Pessoa hoje me acordou, quase implorando, "Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme. A grande, universal, solente pausa. Antes que tudo em tudo se transforme."
Ah, Fernando. Se eu conseguisse sossegar.

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

F. Pessoa

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Toma um café, que o mundo acabou faz tempo


Pálpebras de Neblina

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?".

Caio F. (Sempre Teu)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A carta que não mandei

Hoje foi um dia longo. Mas não, as horas não se arrastaram nem foi um dia pesado no trabalho, só que a demora dele foi refletida em cada minuto dela. Em cada respiração e fumaça que saía da minha boca, eu inalava mais dela, absorvia ela e devorava ela como não houvesse amanhã. E há?
Sentia em cada pêlo eriçado o trago do cigarro que ia acabando, anestesiando o piscar dos olhos, lentos. Tudo em 180 graus com netuno - rei das ilusões ali no céu, olhando por mim.
E aí foi assim que aconteceu. Pela primeira vez eu escrevi a carta que não mandei. Fosse covardia ou coragem demais, talvez eu nunca chegasse a uma conclusão propícia pra isso. Mas foi.
Eu escrevi lentas e incontáveis linhas, transbordando palavras, paixão e sabe-se Deus mais o que, tudo dela. E ainda acho que poderia escrever mais. Um livro, talvez. Um bloco de notas inteiro, página por página, falando do seu corpo, do seu jeito, dos seus pensamentos, mistérios, medos.
Que prepotência é essa que ocorre ao ser humano, achando que é de alguém, que tem alguém.
Fosse inútil pensar que era igual às outras, porque não era. Diziam os astros o que quisessem, que mercúrio na casa sete traz essas reviravoltas explosivas e tendências ao fogo, que a lua em vênus na casa doze faz de você um ser completamente apaixonado pelo impossível, que o sol na casa nove em trígono com júpiter potencializa a sua capacidade de amar. Fosse conspiração da Terra alinhada à constelação da Ursa Maior e as estrelas cadentes - tantas as quais pedi por você - caindo e desabando do céu - direto nos sonhos - novamente incontáveis sobre - você sabe.
Ah, meu amor. Deixa disso. A dor não vai matar ninguém. Uma vez visto, a gente não pode tirar o que já foi conhecido. Então cuidado. Não vá longe demais. Eu fui, me perdi, e tô aqui. Tô aqui. Escrevendo cartas que não mandei.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bruta Flor

Consultório, 19:29.
- Você entende? Hoje não sei mais até quando isso vale. Todo esse sofrimento pelo qual sou culpada de sentir, todo esse controle que me consome diariamente e toda essa - loucura - que já não sei mais se é minha ou se é consagrada. Pr'onde se deve ir quando você começa a questionar a certeza?
- Interessante. Você sabe, isso implica em uma escolha. Sempre há dois lados da moeda...
- Mas e se dois lados não forem mais o suficiente? E se o limite sufocar e eu não quiser mais ser essa - loucura? Uma ciranda eterna, uma gangorra. Designa-me características próprias, foge de mim - fora de mim. Dentro? Afogamento. Falta de ar.
- E aquelas borboletas?
- Parecem cinzas. Foram reduzidas ao acaso e o destino esmagou todas, sem dó. Teria eu que ter dó de mim? Vitimizar as coincidências inseguras que me fazem tropeçar nos amanhãs despertos de dúvidas ou simplesmente ceder e me entregar?
- Se entregue a você.
- A mim estou entregue desde que senti amor pela primeira vez. Não existe sentimento mais caótico e anormal do que esse. Declarações traçadas em seda com o fogo queimando a pele: suicídio consciente!
- Exercite o "não saber".
- Até semana que vem.
- Até.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

E.s.t.a.g.n.a.d.o

Vira a página. Permanecer no mesmo lugar é auto destrutivo, ninguém aguenta essa angústia estagnada - talvez alguém, mas eu não. De tantas coisas malucas que sou e de todo sofrimento pela beleza da vida que carrego, sei me desapegar sempre na hora certa - ou pelo menos na hora em que julgo, certa. Minhas tantas características e diagnósticos me fazem ser uma pessoa de tanta intensidade que não consigo viver o mesmo por muito tempo - e aí vem aquela onda de insatisfação e tédio que toma conta e te deixa um pouco mais (louco).
Tenho crises de personalidade. Digo crise querendo dizer questionamento, conhecimento, descoberta - não crise como brigas ou conflitos. Ora, é um conflito (interno) - todo pra dentro. Porque aprisiono personagens diversos dentro de mim e quero dar asas à todos eles, as vezes ao mesmo tempo.
Tempo - é o que me falta para viver todos os roteiros que existem em mim.
Ando fatigado. Entediado, até. De todo esse cotidiano, que parece mais um reprise de novela, aquelas que passam a tarde, aquelas que já sabemos de cor as falas e as atitudes, aquelas que nos dão os mesmos sentidos fracos e que não surpreendem mais.
Mas de todos os meus diagnósticos, o que mais me preocupa é o que recebi na última semana.
- Você tem problemas em dispersar a realidade da sua própria imaginação.

E você não?

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Metade luz, metade treva


Tudo seu é muita dor, vive. Deixa o tempo resolver, o que tem que acontecer, livre. - Dizia Bethânia. Pelo menos eu encontrava em algumas palavras perdidas, sonoras, um colo necessário pra desprender do sofrimento, ou pelo menos pra ter aquilo que já me via sem - aquela esperança. Inútil chorar. Mas às vezes, era só o que conseguia fazer.
- Você chora muito frequentemente?
Minha terapeuta perguntou, dia desses.
E fui sincera, disse - só quando sinto vontade, e não me ocorre tantas vezes essa necessidade.
Parecia irônico, que depois daquela pergunta, dia desses, me ocorreu diversas vezes, essa necessidade. E chorei. Incontrolavelmente, como uma criança que não vê depois, apenas a dor daquela hora, daquela vida.
Desencana, meu amor. Tudo seu é muita dor.
Ela continuava a soar como soundtrack, insistindo.
Como é que é possível viver assim, Maria, me diz.
Quando o passado é tudo que resta, e a memória é a única fonte de saudade que se preza. O amanhã não tá aí com certeza nenhuma. O dia de hoje toma conta de agora, e depois, o que virá?
É uma angústia inusitada e constante, que amorna o peito e faz da dor um prazer masoquista, reprimido nas lágrimas que não param de correr.
Essa coisa de brincar de viver me consome, desgasta.
Em busca de falsas esperanças - sim, porque no agora não existe mais crença, só dor - a gente brinca, se perde no labirinto de todo dia, se engana e finge que as coisas não acabam, que amanhã o porta-retrato vai estar lá, empoeirado e no mesmo lugar, ao lado do maço vazio, do cinzeiro transbordando e daquele copo pela metade.
Desenflama, meu amor.
E vive.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

De repente


"Porque a dor também perde o sentido. O mundo continua e você também. E o dia ensina em clara sinfonia: Há lutos necessários e despedidas que não podemos adiar. Perder não é sinônimo de desperdício. É caminho aberto para outro estágio, outro cenário, outra véspera de nova fome que alimento algum irá saciar. Afinal de contas, somos incuráveis. Viciados na arte de amar minguantes mesmo que luas inteiras de amor por nós se declarem. Mas há cura para todo mal. Amor acontece. De repente. Demorado. E quase sempre."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Urgência

O que que a gente faz quando não sabe o que fazer? Quando todas as informações se acumulam dentro de uma bolha frágil, e a qualquer momento existe o risco - de repente.
Aquela marca da pele, aquela mensagem de madrugada, aquele choro que você não viu, aquele sorriso estampado no lábio da outra menina que cruzou comigo na rua ontem - ela parecia feliz - e a minha vontade foi perguntar por que.
- Me diz aqui, entre nós. De onde vêm esse sorriso frouxo que você anda por aí esfregando na cara das pessoas?
Como pode existir tamanha falta de sensibilidade na calçada da minha rua e esse rombo dentro do meu peito, três andares acima daquela outra menina - aquela que estava sorrindo, aquela que parecia feliz.
Que crueldade. A gente culpa o mundo, julgando injustas as coisas que caem sobre as nossas cabeças sem sequer questionar pra onde elas vão nos levar. Ora, é claro. Se fazer de vítima é tão mais fácil, você não acha?
Projetar a nossa falta de expectativa e nosso tédio sem fim em pessoas incapazes de administrar seus próprios sentimentos e de sequer receber o sol na cara, que tá lá, brilhando todo dia.
Querer saber o por quê das coisas só traz mais indignação, criança. Quando você crescer você vai entender.
E digo à eles, que incansavelmente repetiram isso pra mim - não quero!
- Mas você não tem escolha, vai acontecer.
Ora, calma aí. Escolha todos nós temos. E são elas que fazem da vida esse campo de batalhas. Você precisa sempre decidir, opinar, responder, saber. Aquele ponto de interrogação que você aprendeu que enfatiza uma pergunta é a causa disso tudo. Mas isso você já deve saber.
Não sabe?
- Eu finjo que não sei, as vezes.
Tudo bem, no mundo é normal fingir. Mas não finja que eu não disse, não finja que eu não avisei.
- Mas a escolha é minha.
É verdade.
- Mesmo sem saber qual é.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Olhos certos

- Queria te perguntar uma coisa.
(Verbos conjugados na segunda pessoa do singular complicam um pouco as circunstâncias)
- O que você quer saber?
(O mistério que se mantém inquebrável é a motivação do questionamento, e por conseguinte, da saudade)
- Talvez a pergunta seja pra mim.
(As incertezas geradas pelo turbilhão barato de sentimentalismo exacerbado carrega sem parar um gatilho de vidro, que uma vez disparado, não pode ser reconstituído)
- Se fosse, você já saberia a resposta.
- Eu sei, na verdade.
- Então por que se questiona? Aliás, por que me direciona uma pergunta sobre a qual é você quem deve tecer a resposta?
- Talvez porque eu queira te envolver. Porque quero que você entre no próximo trem comigo e não olhe mais pra trás. Porque passam pela minha cabeça incontáveis palavras de prefixo "in" que eu poderia encaixar perfeitamente dentro dos nossos contextos e jamais seria suficiente, porque as próprias justificativas que emendo em frases e sigo assim, quebrando argumentos seus - sejam eles meus - estão recheados de palavras que eu prometi não usar mais, como "sempre" e "nunca", porque a loucura me consome a cada minuto de distância e porque essa resposta que procede a pergunta jamais vai se concretizar em virtude desse vício que desenvolvi - e como desenvolvi - de ter você aqui.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Essa ternura bruta que destrói por excesso inábil de amor

Buscamos avidamente culpar alguém, ou alguma característica inata que seja resistente o suficiente para ser a responsável por nossos passos que seguem zigue zagueando nas pedras do asfalto. Cuidado com elas, moça.
Tanto dentro de tão pouco? Arriscaria a loucura.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Reti-sente

Quando olho pela janela atravessada, cheia de persianas invertidas no meio do caminho, que me separam da imensidão do céu, recheado de flocos cinzentos, que me despejam uma melancolia imensurada, um raio de sol cínico cega minha visão, que fica nublada e cheia de manchas, me fazendo perder a noção do tempo, me fazendo querer ficar ali, entorpecida pela luz forte que naquela persiana invertida, me protege do caos daquela mesma imensidão, me anestesia de uma forma não calculada e traz pra dentro um calor bom, um calor que queima a retina, e a fumaça queimada se confunde com o cigarro, e o cheiro de framboesa sobe com aquele cheiro de roupa limpa, se mistura e me deixa mais tonta, mais perdida e mais acelerada, sabendo que a única coisa que dá pra saber é não saber se tem ou se terá, em alguma janela por aí, aquele ponto final que

terça-feira, 24 de julho de 2012

Outra vez ainda


Simples. O que não é complicado, seja em aparência ou em personalidade, feito de poucas partes, sem ocultar nada (esconder). Ironia que o verbo esconder estivesse entre a definição de uma complexidade transparente, óbvia. As palavras podiam se combinar da forma que fosse, agora o que era claro pra mim é que elas não seriam suficientes. Irremediavelmente, eu acordava todos os dias com a mesma ânsia no peito. Aquela sede de café preto, fresco, e com a garganta seca pelo trago daquele cigarro amassado do bolso. Se existia alguma solução, saída ou qualquer alternativa possível para afastar isso, eu desconhecia. Desconhecia querendo desconhecer. Seja o que for do "um dia" que ainda vai nascer, eu sigo acordando dentro das manhãs sublime, com os olhos bem abertos e com um sorriso.
Talvez o verbo esconder se refira à ele.
Sempre no canto da boca.

Oh, darling.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Aqui dentro

"Dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas."

Caio Fernando

Quando falta, ainda resta


Havia enlouquecido. Tinha quase certeza disso. Os dias seguiam constantes, sempre com reviravoltas de embrulhar o estômago. Mas tinham aquelas borboletas também, escondidas ali, pertinho do coração e coloridas, trazendo um caos tranquilo àquela consciência remanescente.
- Que alívio!
Suspiros doces, era o que ouvia.
- Se as borboletas ao menos soubessem como preciso delas!
Como as quero por perto, o toque quase no fim.
Asas delicadas, vulneráveis ao vento que sopra do mar.
E traços definidos que dificilmente conseguem ser superados. Sequer esquecidos.
- Deixe-as aí! Não me leve a única alegria, o único escape, a utopia que me cuida quando em nada mais consigo acreditar.
Faça silêncio. É no sussurro que consigo ouvi-las.
Chegue mais perto.
Um pouco mais.
- Amor! É isso! Você conseguiu escutar?
- Não sei, talvez seja o eco de meus próprios pensamentos.
- Não! Você estava certa. É amor.
- E sempre acontece assim?
- Nem sempre, nem quase. Dessa vez, foi a única vez que foi. Assim.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

I restore myself when I'm alone


Era como um teste à prova de bala. Você só sabe se aguenta o tranco quando precisa aguentar. Descobre que o amanhã pode ser sinônimo de renascimento ao invés de repetição, e luta. Remando contra a maré é que se adquire força para respirar. Não se afoga, calma. É necessário paciência.
- Mas eu não tenho isso, essa paciência.
O meu agora é imediatista, e quando preciso de algo não sei controlar a expectativa.
- Não preocupa, menina, a vida ensina.
A vida, sempre ela. Com tortuosos caminhos, insignificantes acontecimentos e um destino fadado ao acaso caótico. Uma simplicidade frágil que ás vezes eu não entendo.
- Pra que entender quando você pode viver?
Aquele desapego que eu tinha que aprender, além daquela paciência que eu precisava ter.
Era tanta necessidade. Tanto coração assombrado por tormenta.
- Eu te disse, aprende. A vida é agora. Todo esse teu medo do amanhã não faz bem. Você já dormiu?
Toda noite eu tinha sonhos intermináveis. Vivia cenas com você, assistia filmes, e acordava com uma carga que ás vezes era ainda maior do que a que precedeu o sono.
- Então acorda do pesadelo. Mas se você precisa dela, é assim que é.
E é mesmo.

Fronteira

Aqui é onde a gente percebe a diferença e sente falta do que é nosso. Uma semana foi tempo suficiente pra me fazer sentir falta daquilo que tinha ficado pra trás, mesmo que por tempo determinado, mas soava diferente na prática. A minha rotina de segundas quentes e fumaças no jardim, a minha terça de acordar antes da hora, o latido da minha cachorra à porta e as suas lambidas desesperadas, o cheiro da maresia e o bater das ondas. Aquelas coisas bobas, pequenas e simples que a gente tá acostumado, e que só sabe a falta que faz quando não encontra elas no dia seguinte. Aqui as pessoas são diferentes. O olhar delas é mais calmo e passivo, as roupas são básicas e todos parecem muito satisfeitos e acomodados. A turbulência da cidade grande e aquele agito constante que faz as pessoas não aguentarem ficar estagnadas em um sinal de trânsito é desconhecida, por aqui. As ruas são largas e não falta espaço, os carros são neutros e o asfalto trepidado. O ritmo do lugar é simpático, e apenas cruzei sorrisos no caminho, com exceção de uma rispidez insegura.
Acho que nem sei quando foi a última vez que fiquei assim, sozinha. Quando digo sozinha, significo ausência de pessoas. E apesar da falta, essa aventura teve um resultado positivo, e fundamental. É engraçado como nós tendemos à uma adaptação circular que começa e termina no mesmo lugar. E ter uma quebra nesse ciclo me fez valorizar tanto algumas coisas, mas principalmente, aquelas pessoas, as principais. Que saudade tenho de algumas, que ausência boa foi a de outras. Analisar em linhas tortas o que faz falta nos submete a exercer uma escala de sentimentos e aprender a separar, a reagir e a apreciar. Apenas o que sinto agora, é aquela vontade desmedida de voltar. Seja pra rotina, pra confusão, pr'aquele ritmo acelerado de vida e pr'aquele cheiro de mar aberto, pr'aquele banco branco onde eu sento todo dia e tomo café, pr'aquele céu azul cheio de esperança e cheio de conhecimento. A sorte que a gente não tem, é só aquela que não se percebe. Perder isso, mesmo que por pouco tempo, mesmo que apenas por uma distância passageira, mesmo que sem perder totalmente, faz você saber o que deve ser perdido, e faz você querer ainda mais aquilo que ficou pra trás. Eu quero, e quero demais. Quero o avião pousado, com a poltrona reclinada e os fones nas alturas e quero terra firme, quero a minha cidade maravilhosa de volta, quero o engarrafamento, quero aqueles problemas, quero calendário cheio, quero esquecer de acordar, quero ouvir a porta bater, quero te ver chegar, quero sair de casa, quero a minha calma de volta.
Eu quero a minha casa. E não importa pr'onde se vá,
O importante é pr'onde se quer voltar.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Roteiro

A cama ao lado estava vazia. Aquele espaço cheio de ausência refletia o silêncio que fazia no corredor. A semana começou com o céu entorpecido, cheio de nuvens caregadas que pareciam o lado de dentro. Era tanta coisa que a respiração falhava. Tanto você, tanto eu, tanto o mundo todo. Eram cobranças acumuladas, receios intermináveis, o choro preso na retina e a visão embassada. Como é que faz pra andar assim, com esse peso que persegue, esse medo que não some e essa insatisfação que não cansa. São tantas virtudes misturadas com expectativas afogadas. Tanta fé com muralhas de concreto. Coisa demais. São mensagens omitindo palavras, saudade desamparada, pensamento ilimitado e loucura latente. Como é que faz pra fazer tudo isso desaparecer, calar ou padecer. É tanto pesadelo prum inconsciente só, tantas vontades pra pouco tempo, tanta insegurança pruma criança. É tanto cigarro com café, tanto pêlo arrepiado, tanto vento congelado. Como é que faz pra voltar e viver, acordar e se mover, desprender aquele lençol. Tantas imagens em retrospecto, tanta roupa jogada no chão, tanta luz pra pouco porão. Como é que faz pra ser.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

(in)cansável

Ouvi dizer dia desses que escritores são um problema para si mesmos. Uma encrenca desmedida que busca sempre esclarecer as coisas, ou torná-las ainda mais misteriosas. Eu, talvez, possa dissimular palavras da forma com que gostaria de fazer comigo mesma. Transparecer.
Uma delicadeza forte em uma cadeia de sentimentos. Você não sente preguiça de se exigir o tempo todo? Não quero saber, não quero sentir, não quero morrer.
Como uma sopa fria, que você enjoa e empurra o prato - não quero mais.
Sentimentalismo exacerbado. A vítima de si própria culpando a mente irremediável.
São os fantasmas!
Eles assombram sem que você os veja. Sombras escuras te perseguem, e afogam.
Em um mar profundamente infinito, existe uma escuridão solitária tenebrosa. É preciso remar e nadar contra. Contra o que?
Quem, deve ser a pergunta.
Contra v-o-c-ê.

sábado, 9 de junho de 2012

Sobre o tempo - aquele que você disse que não existe


Era compreensível que chovesse por uma semana. O meu edredon não se esticou nem por um dia, e o meu rosto estava tão molhado quanto a janela. Os dias, antes longos e eternos, evaporaram sem que eu tivesse o tempo - aquele que você disse que não existe - de sequer recuperar o ar.
Nem dos sonhos mais eu me lembrava. Meu sono interrompido pela sua ausência me fazia não querer me desligar. No único dia que me esqueci de dormir foi culpa do remédio que esqueceu de me acordar. Semana de sete dias que passou em quarenta e cinco minutos, assim, por extenso, e me trouxe a bagagem de uma vida inteira - vivida em sete dias. Ou foram meses?
A minha liberdade me trouxe tanto. Tanto que ainda falta.
Falta o tempo - aquele que você disse que não existe.
Eu tentei te convencer do contrário. Disse que ele era rei! Foi ele que me trouxe você.
Você me olhou. E foi aí,
que parou de chover.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Você,


-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.

CF.

domingo, 3 de junho de 2012

Re-tros-pec-to


Despertei. Quando abri os olhos, olhei em volta sem reconhecer nada. As mesas brancas que se encaixavam perfeitamente nas quinas da parede eram cobertas de flores coloridas e livros empoeirados. A cama tinha um cobertor amarrotado e no banco ao lado um café quente.
Me sentei. Precisei de alguns segundos de realidade para me desligar do sonho. Aquele, que tive com você. Não bastasse as diárias perdidas com o pensamento agarrado em você, as poucas de sono que me restavam você invadia. Não era justo.
O sol, tímido em um dia nublado, tentava atravessar as persianas azuis e acertar em cheio meus olhos, transbordando de lágrimas.
Uma delas caiu no lençol laranja, e fez uma mancha tão grande. Aquela maquiagem pesada da noite anterior tava toda ali, ainda. Aos poucos a consciência voltou.
Tinham sido três gostos naquela semana. Não queriam mesmo ir embora, e se fizeram presente em todos os dias dela: vodka, café e lágrimas.
Me atingiam em diferentes momentos. Mas você, estava sempre ali.
Quando me levantei da cama, cambaleei. A mesma vontade que gritava de dentro de correr e ir atrás de você, se contradizia com a inércia do corpo, que só queria dormir e ficar ali, jogado nos pensamentos seus.
Enquanto não resolvia, senti o braço arder. Lembrei. Aqueles cortes tinham ficado sem curativo, e eu estava tão exposta quanto eles.
Minha mãe interrompe a confusão, abrindo a porta. Ela me viu chegar em casa, acabada daquele jeito, então não precisava ter receios ou esconder nada. Simplesmente fiquei em pé, parada.
Ela me abraçou e disse:
-Sabe, filha. O coração é o único que dá a vida e a morte. Ele tem vida própria. Com ele, a gente não deve nunca discutir.
Me deu um beijo na testa e saiu, acendendo um cigarro.
E eu fiquei, ali. Com o gosto de ontem, querendo sentir o de amanhã.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um café e a conta


Entre o agasalho felpudo e a pasta pendurada no ombro esquerdo, recheada de papeladas e livros, ele desceu a escada de madeira que rangia a cada passo sentido e que exalava um perfume conhecido: alecrim. Distraído, abriu a porta de casa e encarou o frio que fazia, era abril, não era um frio comum pra época. Mas tudo que vinha acontecendo, também não. Então talvez fizesse algum sentido. Mesmo sem fazer.
Sentou em um café de esquina, na mesa de fora para poder acender seu Marlboro. Pediu um capuccino grande, puxou o isqueiro e se recostou. Ele adorava fazer isso: exílio. Tinha tempo pra pensar, remendar e desfazer os nós de sua hiperatividade sentimental.
Mas ele não sabia que era vã aquela tentativa, de achar sentido onde não tem. Não se pode explicar o inexplicável - ele pensou. O que define o inexplicável? Seria a falta de capacidade? Falta de coração? Não. Isso nunca lhe faltou.
O garçom interrompeu seu fio pensante e apoiou a xícara sobre a mesa, observando o menino que mais parecia perdido em um fuso horário interplanetário. Deu as costas, curioso. Era um homem mais velho, provavelmente viúvo, havia servido na guerra e tinha lá seus traumas pessoais. Mas apesar de tudo, ele também tinha coração.
O menino bebericou o café esfumaçado, queimou a língua e tragou o cigarro. Era o terceiro que acendia - hábito adquirido recentemente graças a sua ansiedade incontrolável. Continuava com o olhar vago, entre tantas pessoas e passagens, ele permanecia inerte.
O garçom, intrigado, voltou a mesa e pergunto:
- Deseja mais alguma coisa?
O menino demorou a responder. Aquela pergunta tinha tantas respostas no seu inconsciente, que precisou de alguns segundos para se dar conta que era apenas um garçom, e que ele não poderia conceder metade da lista que viera a sua cabeça.
- Não, obrigado.
Ele disse seco.
O garom continuou ali, parado. Ele tinha cabelos grisalhos, e tinha aparência de ser um avô muito agradável - pensou o menino.
- Olha, eu sei que isso não é da minha conta - começou o garçom - mas você é tão jovem. E com esse olhar, só pode ser coisa do coração.
O menino suspirou. O vovô estava certo. Era.
- Não sei se de coração. Mas são coisas da vida. Coisas passageiras, eu espero. - retrucou o menino.
O garçom riu, um sorriso melancólico, de quem entendia exatamente o que aquele menino perdido queria dizer. Ele retirou a xícara, passou um pano úmido na mesa e se retirou. Ele sabia, que não importavam as palvaras ditas, ou o esforço feito para convencer o menino de qualquer certeza. Afinal, elas não existiam.As certezas.
Meras invenções! - pensou ele.
O garçom trouxe a conta. O menino levantou, pegou a pasta e disse:
- O que você acha?
- Que você já achou.


terça-feira, 29 de maio de 2012

Looping


 Era aquela mesma melodia. Começava com a manhã, e mantinha seu ritmo durante a tarde. Quando a noite chegava ela ficava no automático, tocando sozinha.
É engraçado como ela tinha essa característica, ato falho.
Necessidade. Era isso! Ou, achavam que era. Em sua memória tudo tinha uma relação. Conforme os fatos evaporavam do momento e entravam no pretérito, dentro de sua cabeça já existiam laços correlacionando todos os sentimentos possíveis, e em sua maioria, inventados.
Ela acreditava em todos. Argumentos contrários ou opiniões reversas, nada era capaz de dissolver aquela imaginação meticulosa, que adquiria mais força a cada manhã, quando a melodia começava a soar.
Seus passos já eram desprendidos da razão, desde quando não é mais possível se lembrar.
Essas idas e vindas, incertezas vitalícias que driblamos com palavras fortes, quanta porcaria!, pensava.
Era intrigante. E talvez, esse sintoma só piorasse aquelas repetições.
Se precisar esquecer, dorme que passa - diziam.
Eu durmo. Mas quando acordo, só encontro a manhã. A mesma de ontem, só que um pouco maior.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Faz tempo. Talvez aqui seja um bom começo. Tempo esse que me fez falta, e só percebi a falta que o tempo fez quando o tempo não tava mais lá. Aquele tempo que a gente tem pra dentro. Tempo de olhar o espelho, o teto e até mesmo as páginas daquele livro velho, favorito, cheio de rabiscos e pensamentos. Tempo de sentir o cheiro da janela, de se esticar na diagonal da cama e fazer um café. Esse tempo de que falo são as minhas madrugadas.
Antes, tão presentes. Todos os dias vinha me visitar.
Não sei se fui eu, que perdi a loucura, ou se ela que cansou de vir me chamar.
Aos poucos me acostumei a não tê-la.
Dela já não sei mais.
O azul do céu é que me recebe, com aquele insuportável vinil transparente, radiando dourado.
Fazia falta que esse tempo não aparecia. Tempo de mim.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Qualquer coisa


Uma menina veio me perguntar, tarde passada.
-Por que você nunca mais escreveu?
Era curioso ver como ela, aquela menina, cheia de inocência e sede de vida nos olhos, ainda podia querer saber das minhas palavras.
-Não sei.
Respondi, querendo desconversar. Eu sou uma pessoa com a boca muito aberta, mas coração nem tanto.
Insatisfeita, ela relutou:
-Então, é porque tem coisa para ser dita. Não é?
E aí eu vim aqui. Fugi da menina com o cigarro na mão, e as sombras foram passando, aos poucos.
Talvez ela esteja certa, aquela menina.
Talvez.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

A gente se dá conta tarde de que a felicidade é fácil, não?


(…) e pensa que pensa ou deveria pensar ou é como se pensasse qualquer coisa assim: porque é desse jeito mesmo que as

pessoas se comportam quando não decifram nos olhos do outro nenhuma promessa ou convite.

- Caio F.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

50


No dia de hoje, o que fiz foi assistir a um filme - muito esperado por mim e pela minha melhor amiga - que trata de um assunto que já virou comum, mas devido a sua gravidade e delicadeza, sempre conseguimos mesclar um olhar de pena e admiração: o câncer.
O filme é estrelado pelo (meu) querido Joseph Gordon-Levitt que interpreta Adam, um rapaz normal de 27 anos que trabalha em uma rádio e não sabe dirigir - se recusou a tirar carteira porque a direção ocupa o quinto lugar na lista de causas de morte. Irônico, não?
Seu papel é brilhante, contracenando com dois outros excelentes atores, Seth Rogen que faz o melhor amigo e Anna Kendrick (que aparentemente estourou depois de seu humilde papel em "Twilight" - merecidamente) que faz a "Doutora" Psicóloga que tenta ajudá-lo após a descoberta.
Falando assim parece um filme como todos os outros tantos que tratam da doença, mas terei que discordar.
Dirigido por Jonathan Levine, o filme tem um aspecto alternativo do cotidiano de um romance dramático de Hollywood, e apela para uma estória sensível e delicada, conquista você, e compartilha cada sentimento vivido pelo paciente através das expressões de Joseph.
Além do que, tem uma trilha sonora genial. São 19 músicas que embalam o filme em perfeita sintonia, entre elas Radiohead e Pearl Jam.
Por fim, é um filme que sabe onde quer chegar. E melhor do que isso, ele consegue, fugindo do cliché, sendo sentimental e explorando a estória e você.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Trilhos


Na volta pra casa de hoje tive que recorrer ao metrô. Até apareceu uma oferta de carona que dispensei, posso ser meio social-desapegada, mas vezenquando curto a proximidade de pessoas estranhas.
Acho que isso se deve ao meu grande poder de observação, e claro, à minha imaginação, que se mostra bastante fértil, dia sim dia não.
Aquela coisa, você desce as escadas superpopuladas, coloca o fone no ouvido - porque não existe melhor gps do que um fone ensurdecedor - compra seu bilhete e fica lá na plataforma, atrás da linha amarela enquanto ecoa um "mind the gap" ao fundo de The Kooks.
Quantidade abusada de pessoas em seus caminhares apressados, perdidos e desequilibrados. Sempre me encantou isso, a falta de direção - ou o excesso dela. Uma diversidade de pessoas, um mundo a parte de sobrevivência cotidiana que se faz ali mesmo, a olho nu.
Considero um belo estudo sociológico - para não dizer antropológico. Não te deixa fascinado? A diferença de cada um, e também a indiferença que cada um demonstra aos outros que estão a sua volta.
Monto personagens, observo seus movimentos, olhares, comportamento. O ser humano é viciante! Quero tanto eles por perto tanto quanto quero meu quarto trancado, cheio de solidão.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Neurose do Século


Na mesa do jantar hoje, meu pai trouxe à tona um assunto que, particularmente denomino de "neurose do século", mas a maioria das pessoas chama apenas de depressão.
Um assunto que bateu todas as cotas e superou as expectativas, e que apesar de Freud e suas teorias sobre o inconsciente existirem desde 1870, temos que admitir que a globalização ajudou relativamente a disseminação da doença.
Um questionamento histérico do eu, não respondido e alimentado por questões ainda mais confusas, como a procedência, a direção e o motivo da existência. Por que?
Disse ao meu pai que no ano passado, ano recheado de turbulências pra mim, conclui que a ignorância seria na verdade, uma bênção. De fato! Já ouvi mais de uma vez aquela frase de quem se faz de forte e não entende a depressão, ou simplesmente não aceita o tempo perdido:
"Pobre não tem depressão."
Verdade.
Mas não tem por que? Talvez porque a vida na essência seja feita para ser vivida, e não questionada. Seja feita para ser superada e não desesperada. Feita para ser sofrida no seu limite, apreciada nas suas pequenas coisas, e sem tempo pra ser desperdiçada.
Não me entenda mal! Não acho o conhecimento, os estudos e uma boa sessão de análise uma perda de tempo... Mas confesso que sem isso tudo, talvez a vida fosse... não sei, mais leve?
Meu pai é uma dessas pessoas que não entende a depressão. Além disso, ele não aceita. Cabeça sempre erguida, energia pra continuar, seja pr'onde for. Determinado até dizer chega, é um guerreiro nato desde sua infância, aquela vida clássica de palmadas por trás de uma família estruturada e feliz. Admiro ele bastante, claro. Mesmo me encaixando no cliché "pai herói", eu me orgulho disso. Mas apesar de tudo, acho que falta um pouco de sensibilidade. Ele é um pouco incrédulo, gosta de acreditar no que é verdade, mas só pra ele.
Eu era um pouco assim. Talvez muito. Geneticamente ou não, eu puxei muitas coisas desse pai.
Mas são coisas engraçadas que a vida faz com a gente, e hoje a nossa relação é meio ao contrário, eu sirvo de base pra ele, enquanto ele se diz perdido na vida, sem respostas.
A depressão dos dias de hoje, é uma realidade. A busca do auto conhecimento se faz necessária por crises, surtos ou simples devaneios diários, porque atualmente a gente consegue rotular tudo - e todos.
Talvez a neurose do século seja um pouco mistificada. Acontece com todo mundo, cara! Ele perde o emprego, a amiga perde o avô, a irmã leva um pé na bunda do noivo, o cachorro tem câncer e morre, a conta do banco tá negativa ha meses, você briga com a sua melhor amiga, a comida do restaurante veio fria...
Problemas!
Esses não faltam. Problemas, sentimentos, expectativas, decepções...
Fatores que preenchem uma vida, que fazem dela um verdadeiro aprendizado. Tenha você medo de pegar o metro sozinho, ou que não consiga comer o seu prato, que tenha visões noturnas, crises de ansiedade ou se afogue no álcool ou em drogas para escapar dessa realidade - insana realidade.
O mundo em si, virou uma loucura!
Acho que é por isso. As pessoas perderam o foco. Esqueceram o que é de fato um problema. Não olham mais pro lado. Só sabem julgar e esperar, querer e ordenar, e por consequência se desesperar. Calma pessoal!
É só o começo.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Dois mil e Doce!


"Os Dragões não conhecem o paraíso"

Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Isso me pareceu grandiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha - felizmente indecifrável - lucidez daquele dia.

Estou me confundindo, estou me dispersando.

O guardanapo, a frase, a mancha, o medo - isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora - as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.

Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.

Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.

Ainda não comecei.

Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.

Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.

Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.

Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.

Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.

Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.

Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: "Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível".

Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in - invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.

Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.

A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.

Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.

Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.

Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?

Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.

Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.

Quando volto apensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.

As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.

Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe.

Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade.

Caio F. - 1988